sábado, 19 de dezembro de 2015

Natal é um tempo de amor, magia e histórias

Hoje, não vou falar de um livro. Vou falar da importância deles na nossa vida. Os livros são portas abertas para realidades distantes, tempos idos e histórias que não são nossas, mas que podem nos proporcionar experiências inesquecíveis. Mas chegar até eles nem sempre é um caminho fácil e raramente, solitário. É preciso que nós adultos ajudemos as crianças a encontra-los, assim, como nossos pais e avós nos apresentaram ao mundo das narrativas orais ou escritas. Em uma infância não tão distante, ouvíamos histórias inventadas ou passadas de geração em geração e brincávamos com lengalengas, parlendas, cirandas, advinhas, enfim, uma série de brincadeiras faladas que nos colocam diante das possibilidades das narrativas e da língua. Hoje, com a infância vivida dentro de casa, a vida corrida dos adultos e o desencantamento do mundo, as histórias, cada vez mais, moram nos livros e nos produtos audiovisuais. Vamos combinar que o que a gente não precisa é apresentar a TV e o mundo virtual para as crianças, mas os livros precisam, sim, de uma apresentação. São poucas as crianças que chegam neles espontaneamente, mas são, ainda em menor número, aquelas que os rejeitam quando tomam contato com as histórias que cabem neles. Somos nós, adultos, que, com nossa voz, pequenas intervenções e muita ternura as conduzimos ao mundo das narrativas. Por isso, nada melhor do que aproveitarmos o Natal, essa festa de amor e magia, para darmos um livro de presente para as crianças. Você pode achar aqui, no blog, uma série de livros bacanas, além das listas de sugestões para crianças de até cinco anos, de seis a nove anos e com mais de 10 anosNo mais, aproveito para deixar meus votos de feliz Natal e um 2016 cheio de boas novas. 

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

50 anos riscando a vida

Hoje acordei com 50 anos. Levantei cheia de sono, querendo dormir mais, mas levantei rápido o suficiente para agarrar a vida com a pressa de quem acredita estar apenas no meio do caminho. E para celebrar essa data, nada melhor do que lembrar o meu poeta preferido, falando com a justeza dos céticos sobre as possibilidades da vida.

"Nunca pensei que tal mundo
com sermões implantaria.
Sei que traçar no papel
é mais fácil que na vida,
Sei que o mundo jamais é
a página pura e passiva.
O mundo não é uma ilha
de papel, receptiva:
o mundo tem alma autônoma,
é de alma inquieta e explosiva.
Mas o sol me deu a ideia
de um mundo claro algum dia.
Risco nesse papel praia,
em sua brancura crítica,
que exige sempre a justeza
em qualquer caligrafia:
que exige que as coisas nele
sejam de linhas precisas
e que não faz diferença
entre a justeza e a justiça."

Trecho de "O auto do Frade", de João Cabral de Melo Neto

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Sobre meninos e meninas

Encontrei Meninas inventadas, de Ana Letícia Leal, na prateleira de uma livraria e ele me chamou a atenção por ser escrito pela irmã que não conheço de um velho amigo de faculdade. Era um livro que não me servia. Pequenino, em formato de bolso, com uma capa convidativa adolescentes que passam horas de pernas pro ar, pensando na vida, escrevendo segredos e desenhando pequenos corações e flores em seus cadernos de escola. Um livro que não tinha nada a ver com meus dois meninos e tão pouco comigo, que estou longe da adolescência e prestes a fazer 50 anos. Mesmo assim o peguei, curiosa em ver o que Ana Letícia escrevera. Queria na verdade saber se sua narrativa era mais uma daquelas que tratam as adolescentes como meninas super-poderosas em eterno conflito com os pais ou com adversárias de escola. Logo na contra-capa tive uma surpresa, Ana Letícia era apresentada por Lygia Bojunga, uma escritora que fala com verdade do ser adolescente e que, por isso, tem encantado muitas gerações de leitores. Ao abrir o livro vi que ele era a reunião de alguns contos sobre questões que angustiam as adolescentes, como auto-estima, amizade, namoros, conflitos familiares, a descoberta do sexo e as escolhas para o futuro. Apesar de não ter para quem lê-lo, resolvi comprar para mim mesma. Eu que não tenho uma filha, apesar de, desde sempre, ter pensado em ser mãe de menina. Todas os nomes de criança que me encantavam eram femininos: Bárbara, Diana, Branca, Dora foram alguns de que gostei ao longo da vida. Eles serviam tanto para forjar uma nova identidade para mim mesma ou para sonhar com uma filha. Eu brincava de renomear a mim mesma e, assim, experimentar novas possibilidades do feminino, que, afinal, era pouco em minha vida e garantido apenas por minha mãe, uma avó, uma tia e duas primas. No mais estava cercada de homens, meu pai, dois irmãos, avô, dois tios e um primo. Homens sempre no comando, homens que ocupavam os melhores lugares da casa e da vida. No meio social da minha família era tradição as mulheres não trabalharem, se dedicarem aos filhos e ao lar. Eu estava sendo criada para transgredir a essa regra, como se fosse uma pioneira. Mas não era. Muita gente já havia trilhado esse caminho antes de mim, mas, em minha ignorância, acreditava estar sozinha e, por isso, olhava para o mundo dos homens. Talvez isso explique minha predileção pelos bonecos. Achava uma perda de tempo brincar de Susi, a irmã brasileira da então quase inacessível americana Barbie. Gostava mesmo de embalar bebês, trocar roupinha, dar mamadeira e os colocar para dormir. Para isso, precisava de bonecos grandes, como Marco Antônio, que foi o mais querido de todos. Presente de uma tia-avó que o trouxe da França, era um lindo bonequinho loiro de cabelos cacheados e olhos azuis que chegou, aqui, com um pintinho, naquela altura impensável nos bonecos brasileiros, o que garantiu o seu sucesso na minha escola. Eu andava com ele para lá e para cá e o apresentava como filho, até que, um dia, animada falei para toda a turma que era meu filho com um amiguinho por quem era encantada. A professora, com o moralismo comum nos anos 70, me passou um sabão daqueles, me proibindo de falar o que, segundo ela, eu não sabia o que significava. Claro que, naquela altura, não pensava em como se faziam os bebês. Estava interessada apenas em sonhar com uma vida de adulta ao lado do meu amor platônico de primário. Naquele dia, sem saber, me tornava mãe sozinha, mas, mesmo sem pai, ele continuou comigo até o meio da minha adolescência, quando o Travolta, um cachorro maneiro, como o Toni do filme, chegou em minha casa disposto a roer o que visse pela frente e se deliciou com as mãos e os pés do Marco Antônio. Triste em ver meu boneco todo mastigado pelo cachorro, acabei me desapegando dele e o esquecendo. Cresci, o Travolta parou de roer sapatos e de comer bolas de Natal, e a vida seguiu sem bonecos e com outros interesses, até que, um dia, me vi diante da maternidade, agora de verdade. Eu estava grávida aos 35 anos, desejando não mais uma menina, mas um menino. E era ele, o Pedro, com o nome escolhido pelo pai, já que eu não conseguia pensar em nenhum que fizesse sentido para o bebê que chegava. Novamente estava diante do masculino, que se ampliou ainda mais na minha vida cinco anos depois com o nascimento do Antônio. Há pouco mais de 13 anos, vivo em um universo formado por bolas, super-heróis, zumbis e jogos eletrônicos e sonorizado por comentaristas de futebol, rock and roll e bobeiras incontáveis que circulam pela web ou que os próprios inventam. Confesso que as vezes me dá saudades dos papos de menina, das brincadeiras de boneca, de casinha, de escolinha, de trocar segredos, enfim, de povoar um mundo de sonhos e sutilezas que só as meninas acalentam. Mas, por outro lado, quando vejo as meninas de hoje não me reconheço nelas. Elas foram jogadas em um mundo de consumo sem fim, que encurta a infância e lhes nega o direito de brincar, se embolar com meninos e meninas sem preocupação com a roupa, os cabelos, enfim, a imagem. Nunca precisei ser princesa para ser menina e sonhar, em um dia, ser mulher. Meus caminhos foram outros. Me maquiei escondida como toda criança, vesti as roupas e calcei os sapatos de minha mãe, experimentei absorventes muitos anos antes da menarca e beijei muito espelho antes do primeiro namorado. Mas nada me caía tão bem a ponto de acreditar que estava pronta para aquela vida. Tudo sobrava, ficava largo, grande, como um aviso de que eu ainda era uma criança. A Branca de Neve, a Bela Adormecida e a Cinderela não me eram caras por serem princesas. Eu gostava delas por serem heroínas que superaram traições, rejeições e o abandono para, enfim, abraçar um final feliz e, se me lembro bem, não eram apenas as meninas que se emocionavam com seus destinos. Os meninos também adoravam aquelas histórias de órfãs, madrastas, bruxas, fadas, anões e  encantamento que faziam das princesas heroínas unissex. Hoje, o sexismo conveniente ao comércio de produtos derivados dessas histórias fazem com que meninos rejeitem histórias maravilhosas para todas as crianças, como O Pequeno Príncipe, Antoine de Saint-Exupéry, explorado hoje pela indústria cultural como mais um mimo do universo das meninas. Essa avalanche de consumo que cai sobre as meninas me assusta e me faz louvar mães e pais que nadam contra a corrente para oferecer às filhas mais da vida. Sei que os meninos não ficam imunes aos apelos do consumo, representando no universo masculino pelos uniformes de futebol e os jogos eletrônicos, mas, em sua maioria, eles conseguem vivenciar a infância menos ansiosos do futuro do que as meninas e isso me alegra em ser mãe de meninos ao mesmo tempo em que me angustio com muitas meninas aceitando para si, sem questionamentos, esse papel de princesa fútil e linda que a industria cultural quer lhes reservar. Cabe a nós mulheres feitas mostrar para elas que o feminino é muito mais rico que um reino encantado. Neste caminho é preciso deixar que elas vejam que existir é experimentar tudo: a vitória e o fracasso, a segurança e a insegurança. a aceitação e a rejeição, a adaptação e a inadaptação, enfim, o conforto e o desconforto. A vida não é nem de perto uma história de princesa. A adolescência, então, nem se fala. É um tempo de inquietações e são sobre elas que as meninas inventadas de Ana Letícia falam sem medo e sem pudores em seus diários, enfrentando com verdade temas delicados. As meninas de Ana Letícia são inventadas, mas poderiam ser encontradas em qualquer parte. É só olhar com um pouco mais de atenção para nossas adolescentes que veremos que, por traz de tanta arrogância, há na verdade muitas dúvidas e medo de estar sozinha em seu mal-estar. Expor sentimentos tão comuns na adolescência, ajudando a menina a reconhecer seu lugar no mundo, é a grande qualidade do livro, editado pela Escrita Fina e ilustrado por Cecília Murgel com os mimos adorados pelas meninas. Uma leitura que valeu ter sido feita, mesmo que eu, neste momento da vida, esteja tão longe da adolescência e das meninas. 

terça-feira, 10 de novembro de 2015

Antônio e o poder das narrativas

As crianças, com sua capacidade de acreditar no que sabem não ser verdade, nos fazem pensar no poder das narrativas. O poder de envolver o outro com a palavra, de criar novos mundos e pessoas, de desafiar a realidade e seus mandatários e de fazer sonhar de olhos abertos. Assim, tem sido desde que o homem criou a linguagem, com suas artimanhas e áreas de sombra. O cotidiano e sua ordem, no entanto, é cruel. Engessa a palavra e endurece quem a ouve ou, muitas vezes, a ignora. Por isso, é sempre bom estar cercado de quem, como as crianças, apreende o mundo com outra lógica e, assim, é capaz de deixar-se envolver sem pudor pelas narrativas. Este é o prazer de ler para crianças. É o prazer de ler para o Antônio, que, com 8 anos, ainda não rendeu-se totalmente ao mundo, como pude perceber outro dia, quando ele respondia a um dever de casa sobre O saci, de Monteiro Lobato, editado pela Globo, que está relendo com o maior entusiasmo na escola. A questão era sobre o capítulo em que o Tio Barnabé conta para Pedrinho sobre o moleque endiabrado de uma perna só. A professora queria saber se ele acreditava na história contada por Tio Barnabé e pedia que justificasse a resposta. Ele olhou para mim e pediu: "Mãe, me ajuda a responder certo?" O apelo me entristeceu por revelar o quanto a interpretação de texto exigida pelas escolas, por mais que lutem contra isso, como é o caso da dele, tira a liberdade do leitor. E tentei desfazer a ideia de que em leitura há um certo ou errado. "Ah, Antônio, não tem certo ou errado. Tem o que você acredita. Você acredita que a história do Tio Barnabé é verdade ou mentira", provoquei. "Acho que é verdade", respondeu. Novamente, como o pedido pelo dever, perguntei o porque de ele achar que era verdade. "Por que o Tio Barnabé contou muito bem a história do saci", disse, resumindo tudo. A verdade é isto, não é o que existe, mas o que nos convence, e só a narrativa tem esse poder. O Antônio entregou-se sem críticas ao relato de Tio Barnabé, envolvente e detalhado, para dar conta a Pedrinho das diabruras do saci. A história era sua velha conhecida, já que eu a lera para ele há pouco mais de dois anos, mas era como fosse inédita. Ele acompanhou a narrativa interessado e ao mesmo tempo obediente ao planejamento da professora. "Não quero adiantar a história. Quero ler com meus amigos", justificou-se. E, assim, o fez. Para sua sorte, depois de uma semana em casa com catapora, voltou à escola e descobriu que a turma não avançara na leitura. Veio me contar animado que não perdera nada do livro. No tempo em que ficou em casa, lemos outras coisas e ele passou seu tempo entre brincadeiras com o irmão, jogos e TV. Muita TV para meu gosto, mas foi diante dela que me mostrou mais uma vez que não tem pudores diante das narrativas. "Mãe, estou chorando de felicidade", me disse, quando o surpreendi chorando com um filme. "O cara passou um tempão procurando a namorada e o filho e agora os achou", disse com o rosto molhado pelas lágrimas. Olhei para aquela carinha fofa de menino, que ainda guarda as bochechas do bebê que foi um dia, e lhe disse que não precisava ter vergonha de estar chorando. "A gente também chora de felicidade, meu amor", disse, torcendo para que ele nunca se arme contra as narrativas e o mundo que elas propõem.

domingo, 1 de novembro de 2015

Dez livros para crianças com mais de 10 anos

Vou postar aqui a terceira parte da lista de livros que recomendei, no site Catraquinha. Agora é para crianças de mais de 10 anos. Como disse lá, a indicação etária é apenas uma sugestão. É preciso avaliar individualmente a maturidade de cada criança para determinadas leituras. A leitura sozinha, por exemplo, requer mais maturidade do que aquela feita com a mediação de um adulto. Portanto, antes de comprar um livro, o folheie na livraria para ver se ele está adequado a criança a que se destina. Todos esses livros estão aqui comentados. Quem quiser saber um pouco mais deles, procure-os no blog. No mais, divirtam-se lendo para as crianças. 


Confira as sugestões para crianças maiores de 10 anos
livros-para-criancas-maiores-de-10-anos da Casa de Lygia Bojunga, conta a história de Raquel, uma menina em conflito consigo própria por reprimir três grandes desejos - o de ter nascido menino, de ser escritora e de ser gente grande. Os desejos de Raquel são guardados em uma bolsa amarela, um universo fantástico que envolve o leitor no processo de amadurecimento da menina.


livros-para-criancas-maiores-de-10-anos1"A invenção de Hugo Cabret", Brian Selznick, da SM Editora, é um livro que tem o cinema como protagonista e por isso traz dele alguns elementos de sua narrativa. Selznick alterna longos trechos de texto com storyboards, sequências de desenhos usados na pré-produção de filmes, para contar a história de Hugo Cabret, um menino que vive escondido dentro do relógio de uma estação de trem na Paris dos anos 30.

livros-para-criancas-maiores-de-10-anos2"As mil e uma noites" é um belo livro sobre o poder das narrativas. A primeira história é a de Sherazade, que cria um estratagema para livrar a si e a seu povo do Rei Shariar, que depois de traído resolve dormir cada dia com uma virgem e entregá-la à morte ao amanhecer. Sherazade apela para o fascínio dos contos para, noite após noite, poupar uma moça de seu povo. Duas boas opões são as edições da Revan, com tradução de Ferreira Gullar, e da Cosac Naify, de Arnica Esterl, ilustrada por Oga Dugina.
livros-para-criancas-maiores-de-10-anos3"A moça tecelã", de Marina Colasanti, da Global Editora, é um belo conto em que a premiada autora cria um universo fantástico para falar do feminino e do poder das mulheres na tecedura da vida. A narrativa de Marina é delicada e intensa, criando em uma história autoral o clima dos contos tradicionais. Um livro que emociona e encanta crianças e adultos. Um livro para compartilhar.

livros-para-criancas-maiores-de-10-anos4"Meninas inventadas", de Ana Letícia Leal, da editora Escrita Fina., é um diário de várias adolescentes que falam das angústias comuns nesta idade. A narrativa da autora tem humor e delicadeza, ao mesmo tempo que enfrenta sem medo questões como amizade, conflitos familiares, as escolhas para o futuro, os namoros e a descoberta do sexo.

livros-para-criancas-maiores-de-10-anos5"O gênio do crime", João Carlos Marinho, da Global, é um clássico que já está em sua 60ª edição e continua agrando a meninos apaixonados por futebol e por suspense. O livro conta as aventuras da Turma do Gordo que é chamada pelo editor de um álbum de figurinhas de futebol a descobrir uma quadrilha de falsários que estava colocando em risco sua empresa.


livros-para-criancas-maiores-de-10-anos6"O fantástico senhor raposo", Roald Dahl, da Martins Fontes, narra o embate do senhor Raposo com Boque, Bunco e Bino - três fazendeiros "incrivelmente maus e mesquinhos"- que resolvem mata-lo por ele roubar bichos de suas fazendas para comer. O conflito acaba por envolver outros animais que vivem embaixo da terra e é rico em situações e soluções para a vida deles.

livros-para-criancas-maiores-de-10-anos7"O Pequeno Nicolau", Goscinny, é um personagem de Goscinny, o criador de Asterix, que ganha corpo nas ilustrações de Sempé. Menino dos anos 60, Nicolau vive hilárias aventuras com seus amigos e pais, narradas de uma forma atropelada que faz lembrar a maneira das crianças de contarem um caso. Os livros são editados pela Martins Fontes e pela Rocco Jovens Leitores,

livros-para-criancas-maiores-de-10-anos8"Psiquê", Angela Lago, Cosac Naify,é o reconto do mito de Psiquê, a bela princesa que desperta a ira da deusa Afrodite e, depois de enfrentar os abismos da alma e a morte, acaba conquistando o coração de Eros. As ilustrações de Angela criam uma atmosfera de sonho e fantasia, como pano de fundo para o enlace da alma com o amor, que faz do livro uma preciosidade.

livros-para-criancas-maiores-de-10-anos9"Sete ossos e uma maldição", de Rosa Amanda Strausz, da Rocco Jovens Leitores, é um livro com 11 contos de terror que é uma boa pedida para a iniciação de jovens leitores no gênero. Com uma narrativa elegante, que não apela para o bizarro, Rosa cria histórias tensas, com tramas surpreendentes, que prendem a atenção do leitor até a última linha.

Dez livros para divertir crianças de 6 a 9 anos

Vou postar aqui a segunda parte da lista de livros que recomendei, no site Catraquinha. Agora é para crianças de 6 a 9 anos. Como disse lá, a indicação etária é apenas uma sugestão. É preciso avaliar individualmente a maturidade de cada criança para determinadas leituras. A leitura sozinha, por exemplo, requer mais maturidade do que aquela feita com a mediação de um adulto. Portanto, antes de comprar um livro, o folheie na livraria para ver se ele está adequado a criança a que se destina. Todos esses livros estão aqui comentados. Quem quiser saber um pouco mais deles, procure-os no blog. No mais, divirtam-se lendo para as crianças. 

literatura-para-criancasA mulher que matou os peixes, de Clarice Lispector, pela Rocco Jovens Leitores, é um dos cinco deliciosos livros da autora para crianças. Neste, Clarice confessa ter sido responsável pela morte dos peixes do filho e vai buscar em suas memórias as histórias dos bichos que teve para convencer a criança, sua leitora, de que não é uma pessoa má e que sempre gostou de animais.

literatura-para-criancasA pequena Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, editado pela Galerinha Record, é uma adaptação para crianças pequenas feita pelo próprio autor que guarda a magia do original. A tradução de Marina Colasanti e as ilustrações de Emmanuel Polanco dão um toque especial à edição comemorativa dos 150 anos de Alice.


literatura-para-criancasA vassoura encantada, do americano Chris Van Allsburg,editado pela Ática, conta a história de uma vassoura de bruxa que perde sua força e despenca em uma fazenda de uma velha viúva. A relação da vassoura com sua nova dona tem um tom fantástico e fica ainda mais rica com as maravilhosas ilustrações de Allsburg. Uma bela história, em um livro para educar o olhar das crianças.

literatura-para-criancasFada Cisco Quase Nada, de Sylvia Orthof, editado pela Ática, é uma preciosidade. Cisco traz em si a essência da infância, que, segundo a autora, pode ser entendida por gente de todas as idades. "A rosa é encantada: só se abre para quem sabe que sempre é tempo de fada". Passear pela casa da Cisco é outro grande barato do livro que se deve ao rico diálogo entre o texto e as ilustrações de Eva Furnari.

literatura-para-criancasHistórias Maravilhosas de Andersen, de Hans Christian Andersen, da Companhia das Letrinhas, apresenta nove contos do autor dinamarquês em suas versões originais, belamente ilustrados. A narrativa de Andersen encanta as crianças com seus elementos maravilhosos e apresenta a elas histórias, como a Sereiazinha e o Soldadinho de Chumbo, em que as emoções humanas são ricamente exploradas.

literatura-para-criancasO saci, de Monteiro Lobato, Editora Globo, apresenta para o pequeno leitor um pequeno inventário da mitologia brasileira. O encontro de Pedrinho com o Saci serve para o autor falar dos mistérios que as matas guardam, apresentando um a um, seres fantásticos, como a Cuca, a Iara e o Boitatá.  O clima de magia e suspense da narrativa é o suficiente para encantar as crianças.

literatura-para-criancasPipi Meialonga, de Astrid Lindgren, da Companhia das Letrinhas, é uma daquelas personagens imortais. Criada na Suécia do início do século passado, ainda tem muito a contar para nossas crianças nos três livros da série. Pippi é uma menina que cresce sozinha, em companhia de um cavalo e um macaquinho, na Vila Vilekula, e tem como seus melhores amigos os irmãos Tom e Aninha.

literatura-para-criancasHistórias à Brasileira, de Ana Maria Machado, da Companhia das Letras, é uma coleção com quatro volumes, em que a autora reconta contos tradicionais brasileiros, como a Moura Torta, o Boneco de Piche e as Três Velhas que Fiavam. As histórias, ilustradas por Odilon Moraes, encantam as crianças e cutucam a memória dos adultos. Para ler e guardar.


literatura-para-criancasMitos gregos, de Eric A. Kimmel, da Martins Fontes, reúne 12 mitos gregos em linguagem acessível para crianças, mantendo-se fiel às histórias originais. Os contos são ilustrados por Pep Montserrat, que se inspirou na arte helênica para compor imagens com cores e estilo modernos. Um livro que tem tudo para conquistar apaixonados pelo mundo mítico da antiga Grécia.

literatura-para-criancasO diário de um gato assassino e A volta do gato assassino, de Anne Fine, das Edições SM, é o divertido relato de Veludo sobre a suspeita de seus donos de que ele seja o autor da morte do coelho do vizinho. O livro ganha uma continuação igualmente saborosa. Uma leitura fácil para quem vai ler sozinho e divertidíssima se feita em companhia de um adulto.

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

Dez livros para crianças de até cinco anos

Vou postar aqui a lista de 10 livros que recomendei, no site Catraquinha, para crianças de até 5 anos. Como disse lá, a indicação etária é apenas uma sugestão. É preciso avaliar individualmente a maturidade de cada criança para determinadas leituras. A leitura sozinha, por exemplo, requer mais maturidade do que aquela feita com a mediação de um adulto. Portanto, antes de comprar um livro, o folheie na livraria para ver se ele está adequado a criança a que se destina. Todos esses livros estão aqui comentados. Quem quiser saber um pouco mais deles, procure-os no blog. No mais, divirtam-se lendo para as crianças. 

livros_para_criancasA Arca de Noé, de Vinícius de Moraes, é uma ótima iniciação na poesia. Os belos poemas de Vinícius para crianças falam não apenas de bichos, mas de coisas do cotidiano e de amor e podem ser acompanhados em suas versões musicadas. A Cia das Letrinhas tem duas edições: uma ideal para crianças menores, ilustrada por Nelson Cruz, e outra, com desenhos de Laura Beatriz.

livros_para_criancasAmigos e Os Aventureiros, do alemão Helme Heine, editados pela Ática, são livros que falam com humor e lirismo da amizade de três amigos que curtem juntos aventuras, brincadeiras e o ócio. Uma narrativa encantadora que faz as crianças se imaginarem no lugar do galo Juvenal, do porco Valdemar ou do rato Frederico. Destaque para as delicadas aquarelas do autor.

livros_para_criancasAperte aqui, de Hervé Tullet, editado pela Ática, convida as crianças a apertarem, virarem, balançarem e chacoalharem o livro, reproduzindo nas duas dimensões da folha impressa os jogos virtuais de computadores e tablets de que as crianças tanto gostam. Uma prova de que o virtual não é um produto apenas das plataformas digitais, mas, sobretudo, da imaginação humana.

livros_para_criancasAs aventuras de Pedro Coelho, de Beatrix Potter, da Cia das Letrinhas, reúne quatro dos 23 contos da inglesa, que, no início do século passado, criou um rico universo campestre por onde circulam coelhos, patos, esquilos, texugos, raposas e outros bichos. A narrativa das histórias tem o ritmo do campo e as ilustrações, delicadas aquarelas da própria autora, fazem dos livros um encanto.

livros_para_criancasDez sacizinhos, de Tatiana Belinky, editado pela Paulinas, é a versão da autora para o tangolomango, aquela brincadeira falada que se começa de 10 para criar uma lengalenga em um ritmo decrescente que envolve a criança na mágica da subtração. Tatiana foi nas matas brasileiras buscar o Saci para criar sua história, que ganhou inspiradas ilustrações de Roberto Weigand.

livros_para_criancasEstela, de Marie Luise Gay, é uma série de livros editados pela Brinque-Book que encanta as crianças. O mundo de Estela nos é apresentado pelas delicadas aquarelas da autora, que mostra o despertar das crianças para as coisas da vida por meio de divertidos diálogos da menina com seu irmão mais novo, Marcos, dono de Fred, um esperto cãozinho que dá ainda mais sabor às histórias.

livros_para_criancasOnde vivem os monstros, de Maurice Sendak, editado pela Cosac Naify, conta em texto e imagem a história de Max, menino que, castigado pela mãe, embarca em uma viagem imaginária à terra onde vivem os monstros. Uma viagem que dá ao pequeno leitor inúmeras possibilidades de dialogar com seus medos, desejos, fantasias e ansiedades. O livro é lindo e um clássico.


livros_para_criancasPé de cobra, asa de sapo, de Rafael Soares de Oliveira, pela Ática, é uma ótima iniciação no mundo dos seres mitológicos. Rafael apresenta em 38 quadrinhas mitos de origens diversas, em textos divertidos. As ilustrações de Jean Galvão contribuem para que a leitura seja estimulante e cheia de descobertas. Ao fim, o autor presenteia o leitor com um glossário sobre os mitos de que falou.

livros-para-criançasSelvagem, de Emily Hughes, da Pequena Zahar, conta com ilustrações vibrantes e texto divertido a história de uma menina selvagem, criada na floresta com a ajuda de animais, e seu primeiro contato com os humanos. Uma história que fala de uma infância feliz e livre e tem tudo para criar identificação com as crianças.


livros_para_criancasTer um patinho é útil, da argentina Isol, editado pela Cosac Naify, mostra em forma de sanfona que tudo na vida tem dois lados. O livro propõe uma inteligente brincadeira com a criança, convidada a desenrolar a sanfona de um lado para conhecer a história do menino com o patinho e do outro, a do patinho com o menino.

segunda-feira, 5 de outubro de 2015

Um convite para olharmos para quem nunca é olhado

Nos últimos dias, eu e o Pedro estamos lendo juntos Capitães da Areia, de Jorge Amado. O livro, que teve sua primeira edição em 1937 e suscitou a ira da elite baiana, que o queimou em praça pública, está fazendo o Pedro dormir mais tarde todos os dias à espera de mais e mais da turma de Pedro Bala. Ele luta até quando pode contra o sono, que teima em o levar para longe das areias de Salvador, e se emociona a cada nova aventura dos meninos desvalidos de quem Jorge Amado nos fala. Uma leitura que está fazendo o Pedro romper a invisibilidade que meninos pobres negros ou pardos sofrem neste país desde os primeiros dias da República. O mérito do livro não é nos fazer desculpar os crimes cometidos pelos Capitães da Areia. É nos fazer enxergar cada um desses pequenos delinquentes como um indivíduo dono de uma história, de uma carência, de uma dor e, por fim, de uma valentia exercida nem sempre para o bem. Mas quem fez o bem para aqueles meninos? Pois é, a literatura de Amado nos tira das sombras que faz com que os brancos sempre-no-comando classifiquem meninos pobres negros ou pardos com o mesmo rótulo: “marginais”. Ele apresenta um a um dos Capitães da Areia e, assim, nos faz pensar neles como pensamos em nossos filhos ou em nós mesmos. Eles são meninos, mas meninos abandonados pela família e rejeitados por todos, que não tiveram oportunidades, amor e acolhida. Meninos que, se tratados como meninos, podem ser como qualquer outra criança ou adolescente. Mas não são tratados como meninos. São tratados como bichos, como pessoas mal queridas e mal chegadas. Mas eles são meninos que sonham com uma família, com um deus bondoso, com comida, com o calor de uma boa cama, enfim, com uma vida que lhes é negada com a violência do desprezo de quem a tem. Este é o mérito do livro, colocar meninos pobres negros ou pardos em cima de um carrossel e fazê-los girar, girar e girar para permitir a eles um pouco do encantamento da infância a eles negada. Jorge Amado denuncia a invisibilidade que os pobres amargam neste país. Uma invisibilidade que só nos fica clara quando olhamos de perto, bem de perto para cada um deles. E foi neste exercício de olhar que o Pedro embarcou e está acompanhando com toda a sua emoção a história. “Mãe, este é o melhor livro que li na minha vida”, disse, fazendo a ressalva de que a história é muito tensa. “Imagina, fazer um manco correr e bater muito nele por que ele não consegue correr mais”, completou, referindo-se às torturas que o Sem-pernas sofreu no reformatório. O olhar que o Pedro está voltando para os meninos de Jorge Amado faz com que ele possa se colocar no lugar deles e, isso, o confunde. Como alguém piedoso como Pirulito pode enfiar uma faca no pescoço de um outro menino? Como Pedro Bala tão valente e amigo no comando do grupo pode as vezes ser tão cruel? Como meninos que tanto sofrem, fazem tantas pessoas sofrerem? Pois é, estas perguntas tiram o Pedro do lugar de conforto que ele vive. De menino amado, querido, acolhido, cuidado e provido e o fazem desejar uma solução para tanto sofrimento. É neste exercício de colocar-se no lugar do outro e de voltar a si depois dessa experiência que está a riqueza da literatura. Se não quero para mim, não quero para os outros. É neste diálogo com o outro que podemos construir nossa identidade e, em uma realidade de tantas conexões superficiais, encontros com o mundo dos Capitães da Areia são ainda mais ricos. Encontros como estes são capazes de mexer e remexer com a emoção de quem está do outro lado do mundo daqueles desvalidos das areias. Não importa se esses meninos foram criados há quase um século por um escritor que já nos deixou. O que importa é que os Capitães da Areia, infelizmente, ainda são nossos contemporâneos e Jorge Amado nos convida a olhar para eles. É justamente neste convite de olhar para quem nunca foi olhado que reside a contemporaneidade do livro escrito há quase um século, mas que se mantém jovem o suficiente para encantar um menino de 13 anos. 

domingo, 16 de agosto de 2015

Um livro para provocar o pequeno leitor

Por mais estranho que possa parecer livro bom nem sempre agrada de cara o leitor. Muitas vezes incomoda, cutuca, irrita, até que, por fim, o leitor cai de amores por ele. Pois é, isso acontece com adultos e crianças que, muitas vezes, olham desconfiados para uma capa ou mesmo desistem depois de umas páginas de leitura. Mas um dia, sem mais nem porque, o livro está lá, esperando para ser lido, o leitor o tira da estante, o folheia e resolve lê-lo. E não é que agrada! Quantas vezes isso já aconteceu? Tantas e com tantas pessoas que não é possível contá-las. Outro dia foi aqui em casa. Eu, toda animada, cheguei para o Antônio com um livro que acabara de comprar. "Olha aqui que legal", disse, mostrando uma capa branca, com o título O livro sem figuras em preto. O Antônio olhou, leu e disse. "Não quero." Certa de que valeria a pena a leitura, insisti. "É um livro sem figuras, mas é muito legal." Antônio, cabeça dura como é, bateu o pé que não queria. Eu, como muitas vezes as mães fazem, fiz ouvidos moucos e comecei a ler, com a promessa de que se ele não gostasse, leria um outro livro. Comecei. Passei a primeira página, em que o autor, B. J. Novak, avisa que o livro não tem figuras, a segunda em que ele fala que o leitor pode achar que por isso ele não terá graça e nada. O Antônio continuava de costas para mim, mostrando que o ignorava solenemente aquele livro sem figuras e graça. Mas não desisti. A medida que fui avançando na leitura e chegando à parte em que Novak resolve pegar no pé de seu arredio leitor, ele foi se virando, vez ou outra, querendo ver como o livro sem figuras apresentada as palavras e prestando atenção. O livro não tem figuras, é certo, seu projeto gráfico, por saber disso, não deixa a criança cair na monotonia e aumenta e diminui o tipo das letras, que, de acordo com a intenção do autor, vão se colorindo e mexendo na página. Enquanto isso, as palavras vão ganhando vida para prender a atenção da criança. O Antônio foi seguindo, foi olhando, foi ouvindo, foi pensando até que, ao fim, com uma cara de quem não tem muita certeza do que vai falar, deu seu veredito. "É chato. Quero outra história." Como o prometido, li outro livro que, agora, ele escolhera, mas não me arrependi nem um minuto de ter lhe apresentado O livro sem figuras, que desafia o pequeno leitor, acostumado com a beleza das ilustrações e a criatividade de projetos gráficos feitos para agradá-lo, a ler o que lhe parece estranho. Nem sempre o novo nos cai bem, mas, não tenho dúvidas, nos dá novas possibilidades de ler o mundo. E, quando se é criança, nada mais divertido do que olhar para o mundo através de um caleidoscópio e ver diante de si vários retalhos do que um dia vamos chamar de realidade.
Se quiser ouvir o comentário sobre o livro na Rádio BandNews FM do Rio, clique aqui.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

A beleza da festa do boi por Roger Mello

A tradição popular é inspiração de Roger Mello em vários de seus livros para crianças. Bumba meu boi bumbá, editado pela Agir, é um deles e revela um talentoso autor, que fez por merecer ser o primeiro latino-americano laureado pelo Hans Christian Andersen pelo conjunto de sua obra como ilustrador. O livro traz o reconto de Roger para o auto do boi, um folguedo popular que agita o interior do Brasil nos meses de junho, julho e dezembro. A história gira em torno da morte e ressurreição de um boi sacrificado pelo negro Pai Francisco para atender ao desejo de grávida de sua mulher Catirina, que sonhava em comer uma suculenta língua. Ao atendê-la Pai Francisco se encrenca com seu patrão, o dono do animal, e é preso. Ele é salvo por obra da magia de um índio, que ressuscita o boi e o livro da prisão e da ira do patrão. Tudo isso contado com muito humor e ritmo e, como manda a tradição, em versos para melhor envolver seu leitor. mas Roger vai além e, usando e abusando de seu talento de ilustrador, recria nas páginas do livro a beleza esplendorosa da festa. Para isso, usa técnicas de ilusão de ótica para garantir o movimento da festa e cria um boi que tem sua cabeça inspirada nas máscaras das Cavalhadas de Pirenópolis, que também mereceram um livro seu. O boi de Roger, como deveria ser, dança e assombra Pai Francisco em toda a história e não deixa o leitor descansar. Ler em voz alta o livro de Roger é como se transportar para um terreiro de roça e ver o boi dançar, cercado de caboclos e índios cantando a magia do auto. O Antônio logo reconheceu a história, como sendo aquela que vê todos os anos encenada no pátio de sua escola pelos professores, adolescentes, funcionários e pais de alunos. Uma festa linda, de cores e ritmos, que ganha vida em qualquer lugar em que haja vontade de celebrar as tradições populares. E Roger tem esse compromisso com a tradição. Melhor ainda é que sabe traduzir esse apreço pelo Brasil com seu traço. “Bumba Meu Boi Bumbá”, por todas essas razões, é uma preciosidade e merece um lugar na estante da família, mesmo depois que os filhos crescerem. Eu vou guardá-lo para um dia ele me ajudar a lembrar da alegria que foi tê-los crianças, brincando em meu terreiro e bagunçando meu coreto. 
Se quiser ouvir o cometário sobre o livro na coluna Hora da Leitura, da Rádio BandNews FM do Rio, clique aqui. 

quarta-feira, 15 de julho de 2015

Uma adaptação que guarda a magia do original

Outro dia venci a resistência do Antônio para novas histórias, com a leitura - diga-se de passagem, à sua revelia - das primeiras páginas de A pequena Alice no país das maravilhas, de Lewis Carroll. "Era uma vez uma menininha chamada Alice. E ela teve um sonho muito estranho. Você quer saber o que ela sonhou?" - comecei lendo. "Bem, a primeira coisa que aconteceu foi essa. Um Coelho Branco veio correndo apressado e, justamente quando passava diante de Alice, tirou o relógio do bolso." - continuei, atraindo a atenção dele, que se chegou, encostou-se em mim e passou a acompanhar a história, adaptada do clássico Alice no país das maravilhas pelo próprio autor, interessado em ganhar os leitores de zero a cinco anos. O livro é uma preciosidade que chegou para o leitor brasileiro só agora, em meio às comemorações pelos 150 anos da primeira edição de Alice, com uma edição caprichada da Galerinha Record. O texto foi traduzido pela maravilhosa Marina Colasanti e está abrigado em um  livro de capa dura, grande, de 24cm por 30, com belíssimas ilustrações do francês Emanuel Polanco. Mas voltando ao texto de A pequena Alice, uma das cerejas do bolo desse badalado aniversário, sua maior qualidade é manter a magia do original. E a maneira de Carroll fazer essa adaptação sem amesquinhá-lo foi transformar-se, diante das crianças pequenas, em um contador de histórias. Ele dialoga com elas em vários momentos da narrativa e busca nas ilustrações ainda mais razões para seu pequeno leitor/ouvinte submergir ainda mais fundo no universo mágico do país das maravilhas e vencer as 47 páginas da história. É nessa triangulação – texto, imagem e leitor – que a pequena Alice vai ganhando vida e encontrando os personagens que habitam o seu país das maravilhas. Assim, o consagrado autor oferece a quem ainda conhece pouco do mundo real um livro igual à Alice, que cresce, cresce, cresce e, depois, diminui, diminui e diminui, mais uma vez cresce, cresce e cresce, desafiando, nesse vai e vem da imaginação, o pequeno leitor a sonhar. Aqui em casa, posso garantir que deu certo. O Antônio passou toda a história acompanhando as aventuras de Alice e olhando com atenção as ilustrações, para, ao fim, me perguntar. "Mãe, ela estava sonhando?" "Estava, Antônio. Você queria ter um sonho como esse", perguntei. "Queria", disse convicto. "Pois, então, feche os olhos para dormir rapinho e fica pensando na Alice, para sonhar igual a ela", disse, aproveitando o ensejo para colocá-lo para dormir. Graças a Carrell, aquela noite foi breve e cheia de bons sonhos. 

Se quiser ouvir o comentário sobre o livro, na coluna Hora da Leitura, da Rádio BandNews FM Rio, clique aqui.

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Hora da Leitura estreia na Band News FM do Rio

Acabo de matar um pernilongo tipo jumbo, que, enquanto eu trabalho no computador, se delicia com o meu sangue. Esse ato de pura vingança, confesso, me deu um enorme prazer, mas alegria maior estou com meu novo projeto: a coluna Hora da leitura, da Band News FM do Rio. Todas as semanas apresento uma resenha de um livro para crianças ou jovens ou uma pequena matéria sobre literatura infantil e juvenil, como mais um espaço para divulgar a magia das histórias para crianças. A estreia foi no dia 17 e, na quarta, vai ao ar meu terceiro texto, sobre a Flipinha. A coluna tem cinco inserções na semana. A primeira delas entre 5h40 e 6h de quarta-feira e as outras às 11h12 e 16h12 de sábados e domingos. Como demorei a falar da coluna e duas semanas já se passaram, desde a estreia, aproveito para postar aqui o link para o áudio dos dois primeiros spots. O primeiro foi sobre o livro Selvagem, de Emily Hughes. O segunda sobre o clássico Píppi Meialonga, de Astrid Lindgren. Se vocês me acompanharem nessa nova aventura, aí mesmo é que vou ficar feliz. Feliz demais! Para isso, basta sintonizar na 94,9 FM. Fico aguardando curiosa para saber o que acharam.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Quando não sobra tempo para o dever de casa

Confesso que, quando criança, algumas vezes deixei de fazer os deveres de casa. Não lembro quantas vezes, mas acredito que o número tenha sido o resultado da conta entre a vergonha de chegar na escola sem eles e a preguiça de fazê-los. Mas uma coisa tenho certeza: todas as vezes que falhei em minhas obrigações de aluna, inventei uma história para não ficar tão mal assim com a professora. A mais comum era a que tinha esquecido meus deveres em casa, mas, em caso de precisar mudar a desculpa, qualquer coisa valia, assim como para o menino protagonista de No he hecho los deberes porque, de Davide Cali, editada pela espanhola Pepa Montano. Ele é inquerido pela professora porque não fez os deveres e sai desfiando uma série de desculpas esfarrapadas e mirabolantes para justificar sua falta. Desculpas absurdas como, eu "tive que ajudar o meu tio a construir uma super máquina para fazer-os-deveres-por-mim. Mas, quando ao fim acabamos, ela não funcionava". A professora ouve com a maior paciência para o deleite do pequeno leitor, que pode acompanhar, em cada uma das desculpas, uma expressiva ilustração de Benjamin Chaud, mas, ao fim, diz que não acredita no pequeno. Ele, espantado, pergunta a razão dele não acreditar nele. "Porque eu li o mesmo livro", diz a professora, mostrando o livro que estamos lendo. Confesso que torci para que o menino pudesse usufruir do benefício da dúvida sobre se sua desculpa havia colado, o que me animou em todas as vezes que precisei inventar uma lorota para a professora. Meu castigo foi ter que, anos depois, conviver com meus filhos fazendo das suas para não cumprir com os deveres de casa. Sou dura na cobrança, como a professora do menino, mas confesso que não consigo esquecer que toda, ou quase toda criança, quer mesmo é arrumar um jeito de não fazer o dever de casa. Assim, ao mesmo tempo que os puno, lá no fundo do meu coração, perdoo meus meninos, quando não lhes sobra tempo para fazer o dever de casa.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Enquanto Rui não cresce e toma juízo

 
Em uma coisa as crianças têm razão: mãe é uma figura chata. Está sempre reclamando, mandando o filho fazer o que não quer, chamando a atenção, enfim, educando. Mas eles, com a experiência que têm, é claro, não são capazes de perceber que toda aquela chatice, no fundo, no fundo, é para o bem deles. Então, vamos combinar que o que sobra é a chatice. E é isso que a mãe de Rui, protagonista de Enquanto isso, de Jules Feiffer, editado pela Companhia das Letrinhas, é: uma mala. A mãe interrompe, com seus gritos, os momentos de prazer do menino, irritando-o, até que um dia, tem uma brilhante ideia: imitar as histórias em quadrinhos e dar um corte temporal na narrativa para livrar-se dela. Enquanto a mãe grita, ele transporta-se para aventuras radicais e, para salvar-se desses novos perigos, usa novamente o recurso do "enquanto isso" aprendido nas tirinhas. Feiffer joga esse jogo como um craque - ele é um reconhecido quadrinista americano - e nos dá, assim, a oportunidade de curtir muitas maluquices, enquanto Rui não cresce e toma juízo. As aventuras narradas por Feiffer bem que poderiam ter saído da cabeça de um dos meus filhos, que ouviram atentos à história, para as redações da escola. Os personagens que cruzam com Rui são os tops do imaginário infantil: piratas, tubarões e outras feras que fazem Rui correr de uma história para outra, até aterrizar novamente em seu quarto para enfrentar a maior delas: sua mãe. Um livro bacana que nos faz lembrar que as melhores histórias para crianças são aquelas escritas por quem não se esqueceu de como era ser criança. Assim, Feiffer cria um Rui cheio de moral, mesmo que, do ponto de vista das mães, ele não tenha qualquer razão.

terça-feira, 2 de junho de 2015

A poesia e os desafios impostos pela língua

Percebo no Antônio um prazer enorme em descobrir os segredos da escrita e a da leitura. Um prazer que faz com que ele, desde pequenino, se divida entre ouvir uma história e acompanhar com os olhos ou mesmo os dedinhos as palavras e frases impressas nos livros. Não raro ele se surpreende no meio da leitura com a grafia de uma palavra ou a pontuação de uma frase. Essa curiosidade, que para mim soa surpreendente, faz com que a leitura noturna seja mais do que ouvir uma boa história, Seja também um momento de investigação da língua. E nada melhor do que os poetas para nos apresentar os mistérios desse português tão cheio de artimanhas. O Antônio não é muito simpático a eles, mas aceitou na boa o livro Um gato chamado Gatinho, de Ferreira Gullar. Acima do preconceito com a poesia, estava a curiosidade acerca do poeta, homenageado na festa literária de sua escola, e de ele conviver com a Isolda, uma linda gatinha negra que teve como companheiro o Tristão, que se foi antes dele nascer, e com a Gueen, que nos deixou depois de 20 anos de vida. Tudo isto fez o Antônio encontrar rapidamente sentido nos versos de Gullar, explorados por ele com a maior sem cerimônia. "Se o gato sobreviveu/por ser muito cauteloso,/tem no entanto um ponto fraco:/ é por demais curioso", leu, fazendo uma pausa para saber o sentido de cauteloso. Foram três noites curtindo os poemas do livro editado pela Salamandra, com belas aquarelas de Angela Lago. Três noites de esforço e prazer de estar conseguindo, passo a passo e dentro de seus limites, vencer os desafios impostos pela língua. Acho que é mesmo assim, brincando e desafiando a língua, que aprendemos a amá-la.